Os Animais e as Crianças


Na qualidade de Médicos Veterinários, há, entre muitos outros, dois aspectos que nos têm vindo a preocupar e preocupam.

Por um lado, a relação entre os animais e as pessoas e, muito particularmente, entre estas e os seus animais de companhia. Por outro lado, a quantidade de animais a vaguear pelas ruas do nosso País (muitos deles abandonados e com sinais evidentes de terem sido ou serem maltratados), podendo esses, constituir um perigo para a saúde pública e para a segurança das pessoas.

É evidente que os dois aspectos antes referidos estão intimamente associados, porque o abandono e os maus tratos decorrem, na maioria dos casos, de uma relação deficiente das pessoas com os animais, tantas vezes por falta de informação, mas também por escassa formação nesse domínio.

É, portanto, com base nestas duas preocupações centrais que devemos fazer qualquer coisa que ajude a minorar, no curto prazo, os dois problemas antes focados, com a esperança de, no médio e longo prazo, sermos todos capazes de encarar a vida dos animais e a nossa relação com eles numa outra perspectiva e com outro sentido.

Na prática, tratar-se-á de procurar aplicar uma pedagogia de bom senso que, em nome de um ambiente equilibrado e saudável, releve a importância de uma convivência responsável das pessoas com os animais, designadamente com os chamados animais de companhia.

Com efeito, dispomos actualmente de inúmeros estudos científicos em áreas muito diversificadas do Conhecimento (Antropologia, Sociologia, Psicologia, Neurociência, etc.) que testemunham a importância da relação entre os seres humanos e os animais.

Mas, há uma relação que, para nós, assume particular relevância. Referimo-nos à relação das crianças com os animais, muito especialmente com os animais de companhia.

Hoje sabe-se, por exemplo, que a relação entre crianças e animais de companhia é quase perfeita. Os estudos têm vindo a mostrar que a convivência regulada com os mesmos, promove a saúde física, ao mesmo tempo que diminui a solidão, a depressão e ansiedade das crianças em crescimento.

Naturalmente que, à medida que vai amadurecendo, a criança amplia a sua percepção do mundo, que -  durante algum tempo – está centrada em si mesma, nos seus progenitores e nos pares mais próximos. Porém, é importante que, em dado momento do seu percurso de vida, ela exercite a sua capacidade de relacionamento com os outros seres vivos que a rodeiam, designadamente os animais, desenvolvendo noções de respeito e de dedicação, tão importantes e decisivos para a convivência social, isto é, para o exercício da cidadania.

Uma boa relação com os animais de companhia pode, portanto, ajudar na formação e no comportamento das crianças, porque, desde que essa relação obedeça a regras fundamentais, pode constituir mais uma estratégia para que a criança aprenda a exercitar alguns aspectos importantes do seu desenvolvimento e crescimento como ser humano (como, por exemplo, a criança aprender algo sobre o ciclo de vida, as perdas, o nascer e o morrer), incorporando noções sobre a sua própria natureza e sobre o Mundo em que vive com outros animais que lhe (nos) devem merecer respeito e dedicação.

Por tudo o que foi dito, parece-nos oportuno exercitar uma pedagogia adequada, justa-mente junto das crianças de hoje, que serão os homens e as mulheres de amanhã.